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quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Ekeneando

eu acho que agora as coisas estão mais calmas,
talvez, agora, a dor seja apenas vontade de poesia.
eu devo estar mais cansado,
cansado da saudade,
cansado da verdade,
cansado daquilo que eu achava que era vontade,
devo estar negando menos as ausências,
eu devo estar devendo menos coisas agora que não há mais tratos,
e por falar em tratos, eu me dei alta do tratamento contra você.
e por falar em você, eu ainda minto pra parecer te precisar menos.
ainda falando em você, sinto falta de falar...
sinto falta de gritar,
até meu silêncio já gritou mais...
e por falar nos meus silêncios, que falta eu sinto.
quase não ouço mais o coração desobediente,
quase não me escuto chamar...
como eu sinto faltas agora que estou cansado das verdades...
como eu sinto, cansado.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

querido, eu estou indo embora.

eu sei que é tarde e pode ser perigoso, mas nada será mais ferino que dormir ao seu lado sem estar em você.
nada doerá mais que essa ausência, essa distância de roupas.
não se preocupe com os meus medos, eu cresci.
não perca seu sono.
e quando eu voltar a te ouvir, me chame pelo nome, por favor...


lembra quando éramos dois?! voltará a ser igual.

lembre-se, sempre amanhecerá, ainda que as noites pareçam infinitas, nosso amor era infinito, mas sempre amanhecerá.

querido, estou com um pouco de pressa e sem espaço nessa fuga, pego minhas coisas amanhã, ou deixe-as com alguém.



fiquei bem, eu estarei melhor quando amanhecer.



Ps.: quando terminar de ler esse bilhete, rasgue-o. não precisamos de lembranças para avivar as marcas desse amanhecer.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

dois pra lá, dois pra cá, dois além...

Eu dancei.
A música acabou,
a perna bambeou,
mas o o coração mandou,
e eu dancei.

Eu dancei.
Senti arrepio,
esqueci o frio, senti calor,
flui como rio,
eu dancei.

Eu dancei,
uma noite inteira, a vida toda;
eu sorri e dancei.

Eu dancei.
eu bem sei,
dancei.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Eu e os verbos...

Eu tenho o cheiro de estrelas que derrubamos,
tenho as mãos vazias,
e tenho o escuro das noites sem você.

Eu perdi a luz,
e vaguei em lugares que esqueci de apreciar,
deixei conforto em braços que não são seus.

Eu disse versos que a verdade não alcançaria,
jurei mentiras que ninguém desfaz,
e silenciei.

Eu fiz planos,
quis realidade,
Onde erramos?

domingo, 3 de julho de 2011

...devaneios de inverno

guardei um pouco do sol em minhas cobertas,
e senti o chão gelar as meias.
bebi mais café.
pela janela o vento faz vida em árvores secas.
tenho sentido um frio além da temperatura,
tenho feito de livros velhos a companhia certa,
e do copo a distração quente.
onde você está?
queria sentir mais uma vez o cheiro amarelo verão que você exala,
mas tenho visto branco,
vazio.
quando a noite chegar vou usar o sol que guardei,
vou beber mais café,
e vou me esquentar com o copo que distrai,
quando a noite chegar vou estar sozinho com meus livros,
e continuar aqui, o único lugar para o qual você não vai voltar...

quarta-feira, 4 de maio de 2011

[vi]zinhança!

Ouvi a porta bater. Meus vizinhos brigaram.
A porta foi na verdade um grito que o homem não conseguiu, ou não quis dar. Ela sim foi expressiva, me deixou na torcida, na expectativa, e a cada minuto daquele desabafo dolorosamente coletivo meu coração batia mais forte e ofegante.
Não sei do começo da briga, presenciamos (eu e o restante do prédio provavelmente) tudo a partir do berro raivoso e embargado de lágrimas e decepção dela:
"-Eu não merecia isto, ninguém merecia isto!"

Silêncio.

Sedenta de explicações que não a convenceriam ela continuou:

"-E se fosse eu?! Se eu fizesse igual aquela vagabunda?! O que você pensaria?"

O silêncio continuou.

A histeria também:

"-Me diz! Fala alguma coisa! O que você quer que eu pense? Como quer que me sinta? DIZ! FALA!!!"

Mais silêncio, e dessa vez ele foi palpável pelo prédio, éramos todos espectadores de algo que nem saibiamos ao certo do que se tratava...

"-Pra mim chega! Não aguento mais Carlos, não aguento! Eu não preciso passar por isso!"

De repente o silêncio é quebrado pelo barulho vazio de porta que bate.
"Pra onde ela iria? casa dos pais? Amigas? Acabar com a talzinha destruidora de casamentos felizes?" eis as dúvidas latentes em nossas desocupadas vidas... Mas pra surpresa geral mais gritos:

"-Carlos volta aqui! Onde você acha que vai? Você não vai me deixar aqui falando sozinha! Volta, estou mandando! Se você sair nunca mais vai voltar! Volta!"

Silêncio. Soluços quebraram o matador silêncio. O choro frágil e desesperado de mulher visceral enchia o prédio. O prédio fazia silêncio, estávamos inerte em uma intimidade que não nos pertencia, que não desejamos ter, a vida do outro por alguns instantes passou a ser nossa, "Deus, que mundo cruel esse, que sociedade omissa, ninguém enxugará as lágrimas dessa pobre mulher?!"

Meia hora mais tarde, silêncio. Burburinho de eletrônicos, cachorros latindo no elevador, e os filhos do quinto andar jogando bola mais uma vez no corredor.

Desci, fui ao supermercado, e na volta quem encontro esperando o elevador?
Ele. O monstro silencioso, o tal Carlos. Sorridente, sim; eu disse sorridente! Feliz com alguns chocolates, um vinho. Que espécie de homem é esse, faz o que faz e acha que vai ficar tudo bem se montar um climinha? E essa mulher?! Será que depois de todo esse showzinho vai fazer de conta que é feliz, que nada aconteceu?! Meu Deus, que vizinhança...

-Boa tarde. Eu disse em tom sóbrio, como se aquela montanha de emoções alheias não me afetasse em nada, como se eu nunca tivesse ouvida nada.

"-Boa tarde." Respondeu o talzinho cordialmente.
E com um sorriso amigável continuou um diálogo.

"-Você é meu vizinho não é?! Desculpe viu, minha mulher, ela às vezes se passa..."

Com um sorriso amarelo vergonha balancei a cabeça como quem diz um sim, mas que isso não se repita...

"-Olha, já conversamos sobre isso eu e ela, e ela ficou de ver com o pessoal lá do teatro se consegue entradas pra vocês aqui do corredor, como pedido de desculpa por estar repassando o texto em casa..."

O elevador abriu. Graças a Deus o elevador abriu. Sorri novamente, mas dessa tentando esconder o choque da revelação profissional, agradeci, entrei em casa, sentei no sofá, e ri por muito tempo.



Somos todos iguais, sempre esperando alguém não nos convidar pra entrarmos em uma "realidade" alheia e pré fabricar-la a nosso bel prazer. Os vizinhos se amam.

domingo, 24 de abril de 2011

Dança de ritual...

Quando ela dançava,

Evocava deuses que eram só seus...

Distribuia bebidas,

E fazia da festa um ritual...

Ela sabia como ser divina no profano,

Sabia do profano o que se deve saber,

Como se deve saber...

Ela sabia servir,

Ela ser, e vir...

terça-feira, 19 de abril de 2011

Fim do dia, começo de vida...

"Tirei os sapatos.
Sentei.
Recostei-me em respiração profunda.
Olhos fechados.
Pensamentos solto.
Corpo que acusa o tempo.
De repente: barulho.
Sorriso largo.

-Sim filho, o pai pode brincar agora... "

quinta-feira, 14 de abril de 2011

[cho]vendo coisas...

...sentiu cores novas e se entregou.
sentiu vento fresco e se abriu.
viu o desejo se anunciar e foi seu.
deitou-se no chão com respiração de querer,
foi passivo à situação.
molhado.
sentiu os pingos de entrega.
se entregou.
foi entregue.


era troca.


quando a vida foi maior,
o ato foi maior que algum nome podia limitar.
quando a força cresceu ele apenas aceitou se esperar...
teve prazer em sentir jorrar...
esperou o prazer do outro lhe satisfazer.
e ali, deitado na chuva, em sua plena companhia
soube amar o ato de chover....

terça-feira, 5 de abril de 2011

ser noites e dias...

e quando viu que a noite não era mais presença,
pensou em dormir,
em acordar acordos que não sabia fazer,
pensou em ser dia,
em ser chuva de verão,
pensou em todas as possibilidades do ser...
mas quando viu que a noite não era mais, apenas aceitou viver...

quinta-feira, 17 de março de 2011

Como se amasse...

Me viu e se encheu de luz,
Fez dos olhos grandes jóias que pensei serem minhas.
Correu,
pulou em mim,
E como se mais nada existisse me beijou a face,
me cheirou o pescoço,
disse que estava com saudade.
Me fez desejo,
se fez desejo.
Como se me amasse foi chuva no deserto,
foi o que quis,
porque paciente eu a esperava simplesmente ser...
Como se amasse me deu "amor"...
Virou-se, distraiu-se com algo e se foi...

terça-feira, 1 de março de 2011

Laura...

Quando dançou, fez com força.
Foi planta de pé no chão.
Foi barulho e suor.
Mas foi brisa que escorre entre cores de fazeres...
Quando foi lagarta, construiu casulo.
Fez ninho escondido.
Fez do feio a única chance de ser belo.
Fez casco, escudo...
Mas quebrou tudo em asas que cintilavam e voou...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Sóbrio...

Eu queria beber algo mais forte,
algo mais morte.
queria algo mais intenso que você,
queria beber nos teus olhos o que os meus não conseguiram esconder.
eu queria despedida.

Eu queria beber algo mais intenso,
algo que me fizesse viver,
esquecer.
queria ter motivos pra te procurar,
pra te enterrar,
pra fazer passado,
fim e acabado.

Eu queria beber algo mais cortante,
mais vidro, mais transparente,
algo mais atraente que a mentira de você.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

desafios da noite...

a noite eu vejo ratos, eu sinto gatos,
todos arranhando dentro de mim
a noite eu vejo pó,
eu sinto a solidão prantear e gritar em meus olhos vermelhos.
me sinto só...
a noite eu digo coisas que não sinto,
eu nunca minto
e a noite eu vivo dias que as batalhas não venceram,
vivo momentos que não morreram
faço viagens que o dia esconde,
a noite é quando estou sóbrio,
quando me entrego ao opróbrio
e me sinto só mais um...
é quando sou um número que esqueci de contar...
quando esqueci de acordar...
quando escuro me faz ver.
é quando no silêncio alguém me chamar...
alguém me matar...

sábado, 30 de outubro de 2010

Busca pés...

Cabeça baixa,
peso da fé,
e amar até o chão,
mesmo depois do não,
mesmo sem tua mão, teu pão,
amar mesmo sem ter teu coração.
Andar solitário por entre você,
estar em você e ser de você o bem querer
sonhar na rua,
viver na lua,
me fazer da tua carne nua e crua.
ver o sol que você deixar passar,
sentir o cheiro que você exalar,
exaltar e te ressaltar,
sonhar com nós dois em altar,
sonhar com você, em estar...
fazer carinho de mansinho,
ser seu "neguinho", seu pedacinho de céu,
te levar em mel, usar contigo um anel,
te buscar quando acordar
me arrastar, buscar teus pés
e te achar...

... sábado

É sábado de tarde, e a cidade vai com uma cor peculiar.
É sábado e a voz que canta é Bethânia.
Eu vejo cinza em dias como hoje.
Sinto cheiros de cítrico calor,
e o vento que espero faz frio e arrepio em corpo distante.
É sábado de tarde e a chuva vai começar....
vai lavar e levar coisas que eu esperei e detestei por tempos...
É sábado de tarde, e ainda não é tarde para ser sábado.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Às vezes...

Às vezes eu queria sentar, sentir e escrever,
E às vezes eu queria só apagar...
Às vezes eu queria dividir,
Sonhar verbos e acordes de cores que não sei criar.
Às vezes eu queria precisar, ter a noção exata do tamanho,
Ter a roupa certa, pra depois tirar.
Queria às vezes me atirar, mas sem ferir.
Às vezes queria chorar, doer de tanto rir e depois?
Depois não sei, estou falando em passado.
Estou falando de "às vezes..."
Mas também estou falando em estado de espírito,
De nascer do vento, de crescer com a lua e queimar com o sol.
Estou falando em santidade, em meias verdades,
Falando das virgens que me disseram não poder terem filhos.
Eu falo em estrada,
Em partida.
Falo de mudança.
Eu falo em dançar.
Eu falo em ficar e ouvir.
Eu me permitir...

Quase tudo...

Hoje tudo cantou,
O vento na minha rua fez música sombria e fria.
A flauta do sexto andar fez música dançar.
A chuva fez música para a alma lavar.
Às luzes na rua molhada fez música pingar...
Hoje quase tudo cantou, porque eu me dei ao prazer de silenciar e ouvir...

quarta-feira, 21 de julho de 2010

CoM[eNdO]...

Quero tê-la,
Sentir seu cheiro,
Sentir suas dores e gozar de seus amores.
Quero andar em suas curvas,
Descobrir suas cores,
Quero lamber seu mel,
E me embriagar do seu fel
Eu a quero por completo,
Quero como amante,
Como mãe, mulher e irmã.
Quero como quem tem fome,
Quero sem nome, sem sobrenome,
Sem títulos, sem roupa
Te quero nua.
Crua.
Te quero casa,
Como quem mora na rua.
Te quero berço.
Eu quero como criança quer,
Sem pretensão,
Com intenção
Eu quero por vontade.
Te quero por necessidade.
Te quero cidade.

sábado, 10 de abril de 2010

LâMiNa...

A lâmina que corta já não feri mais.
O ódio que cerca, não está mais sozinho.
E eu? Eu ainda passarinho.
Tive razões, e perdi cada uma delas.
Tive medo e ainda tenho.
Andei por entre sonhos e acordei,
Fiz acordos e me arrependi.
Não abri mão, mas desisti de lutar.
Eu quis o sangue e chorei.
Eu sonhei com noites em dias ensolarados,
E às vezes, aflito, perdi o sono junto com os sonhos.
Mas e minhas asas? Ainda batem.
Me joguei, me lancei de cabeça.
Fui inteiro, sou pequeno.
A mão que hoje afaga, já bateu,
E o contrário é verdadeiro.
Mas eu às vezes minto.
E meus vôos? Esses me levam por aí...
Passeando ao longe, sempre voltando pra perto.
Sempre sendo deserto.
Acariciando mordidas e escondendo feridas.
Sempre assim, sempre mais de mim.